CAPA
O VAREJO PULSANTE DA
BICENTENÁRIA CAMPININHA
Dos pequenos negócios na Campininha das Flores, passando pela chegada dos mascates, o mais antigo bairro de Goiânia transformou-se num pujante centro comercial. Campinas não deixou de ser o rincão querido para seus filhos, um embrião histórico para a capital, mas acima de tudo é a mais importante fonte arrecadadora do município
Chegando aos dois séculos de existência, o mais antigo bairro da ainda jovem capital Goiânia, Campinas ainda guarda resquícios das pequenas cidades e dos pequenos comércios. Muitos daqueles que contribuíram para fortalecer o seu papel na economia goiana permanecem na ativa, outros deixaram legados varejistas que não sucumbiram.

Ao se fortalecer e se diversificar, o comércio campineiro passou a atrair levas de compradores de muitos lugares, mais de 100 mil pessoas mensalmente. Nem por isso o bairro perdeu sua aura interiorana. Ali, a maioria se conhece, se cumprimenta e se atualiza nas rodas de conversa. O bairrismo dos campineiros é famoso, assim como sua vocação para o comércio. A brincadeira da Fababa, sigla para Faculdade da Barriga no Balcão, virou coisa séria em Campinas. O balcão ajudou a formar famílias inteiras em universidades tradicionais, mas também ensinou a muitas gerações o valor do comércio na engrenagem da economia.

Hoje, profissionais de áreas diversificadas que nasceram e se criaram em Campinas estão espalhados pelo mundo, mas não esquecem as lições do lugar, muitas delas geradas pelo comércio. Se as flores da Campininha desapareceram, se mantiveram intactas a força, a determinação e a solidariedade de seu povo. Retratadas numa convivência familiar e amigável, essas características são orgulho dos campineiros que comemoram em julho os 200 anos do bairro, hoje o retrato goianiense mais autêntico de um varejo pulsante.


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COMÉRCIO DE RUA COM APELO HISTÓRICO

Vem de longe a relação de Campinas com o varejo. Tudo começou há mais de 150 anos quando caixeiros viajantes se reuniam no largo onde hoje é a Praça Joaquim Lúcio para trocar mercadorias.



Depois, a então Campininha das Flores transformou-se em passagem obrigatória para romeiros da Festa do Divino Pai Eterno, em Trindade. Mais tarde, com a chegada dos padres redentoristas, deu sustentação à construção de Goiânia. E nos tempos de hoje, o bairro acolhe consumidores que a cada dia ganham mais poder de compra e mudam o cenário da economia brasileira. Esta soma de fatores fez de Campinas uma referência comercial sem perder a tradição e o apelo histórico, motivo de orgulho para quem viveu ou vive ali.

Como Goiânia nasceu à sombra de Campinas, o bairro foi o precursor da organização representativa comercial. Em 1936, no Cine Campinas, numa reunião que tinha à frente Venerando de Freitas Borges, primeiro prefeito da nova capital, foi criada a associação comercial local que passou a ser presidida por Licardino de Oliveira Ney. Comerciante pioneiro de Campinas, ele também tinha sido prefeito do extinto município. Foi desse encontro que nasceram todas as outras entidades representativas do comércio goiano que vieram depois.

Foi também em Campinas que grande parte dos imigrantes árabes se instalou. Eram famílias sustentadas por mascates, homens corajosos que percorriam longas distâncias, enfrentando toda sorte de adversidades, levando mercadorias de porta em porta. Alguns desses homens, que assumiram depois o comércio formal, ainda permanecem em Campinas.

Esta parte de Goiânia pode ser considerada o melhor retrato do comércio de rua do Estado. O maior atrativo é a diversidade segmentada com preços atraentes. Se os produtos populares importados levaram comerciantes tradicionais a abandonar a atividade, outros resistem bravamente ou transferiram para filhos e funcionários o gosto pelo varejo.

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Arraial, cidade e bairro

» 1810 – Mineradores, chefiados por Joaquim Gomes da Silva Gerais, chegam para garimpar ouro às margens do ribeirão Anicuns iniciando o Arraial de Campinas.
» 1845 – Surge a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição e Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Matriz de Campinas).
» 1853 – Povoado é elevado à categoria de freguesia passando a integrar a Vila de Bonfim (Silvânia).
» 1894 – Missionários redentoristas chegam a Campinas.
» 1907 – A freguesia de Campinas ganha a denominação de Vila, mantendo jurisdição sobre o Patrimônio de Barro Preto, hoje Trindade.
» 1921 – Chegada das freiras alemãs, fundadoras do Colégio Santa Clara.
» 1935 – Município é extinto e incorporado a Goiânia, que acaba de ser criada.


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Densidade comercial afasta moradores



Num quadrilátero de 10 mil metros quadrados de Campinas, 5 mil lojas de diversos segmentos modificaram o antigo bairro nas últimas décadas. Muitos dos moradores não resistiram aos apelos do mercado imobiliário cedendo suas casas para o comércio. Estima-se que Campinas seja responsável hoje por 65% da arrecadação tributária da capital, gerando mais de 80 mil empregos diretos e outros 5 mil indiretos. Uma engrenagem mantida por mais de 100 mil pessoas que passam pelo bairro diariamente, segundo estimativa da presidente da Associação dos Empresários de Campinas, Margarete Maia Sarmento.

A grande densidade comercial de Campinas, talvez a maior da região Centro-Oeste, fez do bairro um local diferenciado. São nichos de compras, por atacado ou a varejo, uma situação única em Goiânia. Com tamanha diversificação e a fama dos preços acessíveis, os consumidores surgiram, mas os moradores saíram. O êxodo foi provocado pela densidade comercial que tirou a qualidade de vida do lugar e pela valorização dos imóveis. Campineiro por adoção e devoção, o presidente da Associação de Moradores de Campinas, Osvaldo Dionísio lamenta a êxodo. “Com os imóveis valorizados, as pessoas vendem e passam a viver em outros locais. Quadras inteiras de residências transformaram-se em lojas. Campinas chegou a ter 43 mil moradores, hoje não chega a 14 mil”, afirma.

“O que permanece intacto em 200 anos de história
é o bairrismo dos campineiros,
os únicos goianienses que enchem o peito de orgulho”

Impressionam os valores pagos pelo metro quadrado entre as Avenidas 24 de Outubro, Castelo Branco, Independência e a Rua José Hermano. Os preços variam entre R$ 1,3 mil a R$ 5 mil. A luva de uma loja de 100 metros quadrados pode chegar a R$ 100 mil.

A revolução comercial num bairro centenário gerou empregos, renda e tributos, mas também problemas, como insegurança e falta de estacionamento e de arborização. O que permanece intacto em 200 anos de história é o bairrismo dos campineiros, os únicos goianienses que enchem o peito de orgulho para falar de seu rincão e defender seus ícones, como o Atlético Clube Goianiense, a Praça Joaquim Lúcio, a Matriz de Campinas, a Rádio Difusora, o Colégio Santa Clara e o Museu Ornitológico, de José Hidasi.

Foi em Campinas que nasceram muitos dos empreendimentos comerciais que ajudaram a erguer a Goiânia de hoje. Boa parte deles continua lá, em especial na Avenida 24 de Outubro, a principal artéria do bairro. É o caso da Joalheria Omega do Balão, fundada pelos irmãos matogrossenses Geovar e Jovanil Pereira, cuja matriz permanece no mesmo endereço da avenida onde surgiu há 49 anos. Geovar conta que enfrentou muitas dificuldades, viajando num fusquinha, para consolidar a empresa que tem hoje.

Todas as grandes redes de lojas têm pontos na Avenida 24 de Outubro. O Grupo Novo Mundo, fundado pelo mineiro Luziano Martins Ribeiro, um campineiro de coração, mantém quatro lojas no bairro num raio de menos de dois quilômetros.


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O paulista Antônio Meneghello foi precursor na indústria campineira de confecção. Em 1967 com o sócio Tesuo Shiraishi ele fundou a Creações Sayonara, na Rua Benjamim Constant. Meneghello que mais tarde criou a Tom’s Jeans, Bicão e a Bulk Confecções, conhecia bem do ramo em São Paulo, onde atuava como técnico de máquinas de costura. Nos anos 80 chegou a comandar mais de 300 funcionários em sua indústria de confecção.

Campineiro e rotariano de carteirinha, Meneghello lembra com saudades de sua chegada ao bairro, um tempo de casas de muro baixo e festas de casamento das filhas de fazendeiros no Tênis Clube que duravam uma semana. Em sua loja, na Rua Alberto Miguel, ele está sempre articulando a favor de Campinas, lugar que escolheu para criar a família e onde ainda vive. A águia com labaredas, símbolo da Bulk Confecções, é um dos emblemas dos negócios campineiros. “Sempre acreditei que o comércio aqui seria bom”.

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Uma das maiores redes calçadistas de Goiás nasceu por iniciativa do sapateiro José Dionísio dos Santos. Ele fazia parte do grupo de bons sapateiros que deixou o Crato (CE) a convite do comerciante Temístocles Granja Falcão para fazer a vida em Goiânia. O grupo viajou durante dias num caminhão pau de arara até chegar à jovem capital, mas o negócio não deu certo na Campininha as pessoas gostavam mesmo era de precata (chinelo). Em 1954, na Rua Benjamim Constant, surgia a Rival, que recebeu o nome em homenagem a uma empresa do Crato. Hoje, tendo à frente Ruimá Dionísio, um dos seis filhos de José Dionísio, a Rival conta com 13 lojas, duas delas em Campinas.


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Ele é baixo, magro e não come quibe, mas é libanês. Kalil Tayfour começou a trabalhar na Avenida 24 de Outubro ainda menino com o irmão Mohamed, um mascate. Este foi o início da Feira Campinas, uma loja que contraria todos os prognósticos e se mantém no mercado. As prateleiras de madeiras, uma miscelânea de produtos ainda nas caixas, o atendimento personalizado e a total ausência de tecnologia fazem da Feira Campinas uma atração no comércio campineiro.

“Aqui vendemos de tudo, por isso tem nome de feira”, avisa Kalil. No balcão, além dele, trabalha Fátima da Silva, funcionária da loja há 36 anos. Kalil guarda parte da memória de Campinas. “Quando a Avenida Anhanguera foi aberta aqui, em 1967, tinha uma mesa de bolo que ia da Praça A até a baixada do Dergo”, lembra.

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Outro ícone do varejo de Campinas é a Casa Deus e Mar, antiga Casa 14 Portas. O velho armazém de 1937 que vendia produtos diversos como querosene, corda e fumo deu lugar a um estabelecimento em que alumínios, utensílios de barro e esmaltados sobressaem. Fundada pelo piauense Antônio Lacerda Simões que morreu há 17 anos, a loja é comandada por Alberto, um de seus filhos.

Alberto Lacerda preserva o azul intenso da fachada e a máquina registradora de 60 anos que pertenceu ao pai. A maioria da clientela é formada por fazendeiros, muitos deles filhos e netos dos primeiros fregueses. “Não tenho medo da concorrência”, avisa Alberto, lembrando que Deus e Mar deram nome à loja porque o pai acreditava que eram as duas maiores forças do mundo.


Aos 78 anos, o ex-mascate Hanna Mtanios Hanna, há 57 no Brasil, não perdeu o hábito de receber amigos e clientes com café árabe e biscoitos. É uma tradição em Campinas desde 1954 quando ele montou a sua primeira loja, a Casa Alô São Paulo, depois veio a Casa das Novidades. Agora, a Enxovais Carioca está instalada na Avenida São Paulo com a Rua Quintino Bocaiúva.

Sempre sorridente, Hanna também é conhecido por ter criado sozinho os filhos após a morte prematura da mulher. O empresário sente orgulho pelos filhos serem profissionais respeitados e por ter condições físicas de manter seu comércio. “Se não fosse isso aqui já tinha morrido”. Na Enxovais Carioca está a máquina registradora que o acompanha há 54 anos. “Prefiro ela. Não vendo e nem empresto”, avisa.
Alguns dos empresários
que mudaram o comércio de Campinas


José Martins de Souza Zenha – Madeireira Lisboa
Antônio Meneghello – Bulk Confecções
Geovar Pereira – Joalheria Omega do Balão
Antônio Camargo – Empresa A. Camargo
Luiz Höhl – Casa do Pica Pau
Sebastião Maldi – Pneulândia
Luziano Martins Ribeiro – Novo Mundo
Odilon Soares – Irmãos Soares
Antônio Passaglia – Bom Preço Auto Peças
Antônio do Prado – Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Notas
Lázaro Martins Borges – Tecidos Borges
Nilson Limongi – Motobraz
Luiz Gonzaga – Vênus Calçados

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